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  • Lições e desafios de uma feminista brasileira em Uganda
    Foi a convite do atual companheiro que Marília Cardoso visitou Uganda pela primeira vez, em junho de 2018, quando desembarcou na capital, Campala. Feminista interseccional e radical, como ela mesma se define, desde pequena a paulistana é apaixonada por causas sociais e viu no país do leste africano um ambiente perfeito para colocar em prática o que aprendeu nos últimos anos sobre desenvolvimento social com o recorte de gênero, bandeira que ela orgulhosamente levanta há muito tempo. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Hoje, aos 35 anos, Marília tem total ciência dos privilégios que a pele alva a traz nessas terras e a mantém afastada de riscos aos quais as mulheres negras locais estão expostas, mas também diz não querer se colocar como a salvadora branca tentando remediar as mazelas deste povo. Ela foi disposta a ouvir e aprender bastante sobre seu papel de estrangeira branca nessa região. Durante a pandemia, ela e outras duas brasileiras – Helen Rose e Elisa Pires – fundaram o Instituto Agali Awamu, que na língua luganda significa “juntos conseguimos”. A entidade pretende impulsionar projetos sociais no Brasil e em Uganda nas áreas de educação, gênero, raça e meio ambiente, mas tudo através de uma metodologia comunitária. A paulistana frisou que “tem que haver o respeito” para conseguir realmente envolver a comunidade no processo decisório de criação de projetos. Com essa postura, conseguiu fazer trabalhos “diferenciados” e muito mais “específicos de cada região”. Assim, era possível ver a sustentabilidade do projeto não apenas financeiramente. “Quando a comunidade participa do desenvolvimento, de todas as decisões e do design do projeto, ela acaba conseguindo dar sequência para com as próprias pernas. Muitas vezes, após um período de tempo, com muito mais eficiência e mais capacidade de competência, justamente porque foi envolvida desde o começo, foi trabalhado por eles, foi criado com sabedoria, conhecimento, vivência deles”, esclareceu. Ao tocar neste assunto, Marília deixa claro querer evitar o que classifica de intervenções, como chama o estilo de trabalho de alguns órgãos internacionais, que chegam querendo dizer para determinada comunidade como ela deve viver e solucionar seus problemas, sem escutar e envolver os locais. As três fundadoras do instituto ainda não se conhecem pessoalmente: foram apresentadas virtualmente por amigos em comum. Mas todas tinham o mesmo sonho, que sai agora da tela do computador. Marília é formada em Relações Internacionais. Por quase 10 anos trabalhou no setor privado, em posições de desenvolvimento de negócios em empresas de tecnologia da informação – um mercado predominantemente masculino.   A história dela com o continente africano começou quando, em 2017, foi para o Quênia. A ideia era fazer um trabalho voluntário, mas Marília não queria simplesmente apoiar o já lucrativo setor do “volunturismo” (como é chamado na região o mercado que lucra com viajantes que buscam fazer voluntariado em países africanos, mas nem sempre preocupados com o impacto das suas ações nos locais). Foi quando conheceu um projeto que trabalha com empoderamento econômico feminino através do futebol, quebrando normas sociais de gênero bastante enraizadas no interior queniano, uma região de extrema vulnerabilidade social e econômica. O objetivo era implementar uma incubadora de negócios para promover a independência financeira de jovens e mulheres na região. Precisavam de alguém com experiência em desenvolvimento de negócios para treinamentos na área de marketing, vendas e empreendedorismo. A brasileira apareceu com essas habilidades naquele exato momento. “Entendemos que ali tinha uma sinergia. Eu queria trabalhar com organizações locais comunitárias, com desenvolvimento social com base comunitária. Não tanto com organizações internacionais, que já têm o seu playbook internacional de como as coisas devem funcionar. Eu queria ter um trabalho mais de base de campo", explica. Era para ter sido uma experiência de quatro meses, mas ela acabou morando por três anos entre Quênia, Ruanda e finalmente Uganda. Depois de um breve período no Brasil, foi para Ruanda, o primeiro país do mundo a ter um Parlamento onde as mulheres são maioria e que há anos está entre os dez países mais igualitários do planeta, de acordo com o Relatório Global de Gênero anualmente divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Na lista do ano passado, o país ficou em sétimo, logo atrás da Namíbia. Ambos se destacaram no grupo onde também estavam nações como Islândia e Suécia. Foi exatamente o caminho até essas conquistas que Marília queria explorar. Apesar da grande representatividade feminina, a brasileira destaca que Ruanda ainda é um país patriarcal. Em seus estudos, acabou se confirmando a relação do cenário atual com o genocídio de 1994, quando a população masculina de Ruanda foi assassinada em massa. As mulheres sobreviveram, resistiram, ganharam mais espaço, mas ainda enfrentam muitos desafios. “Hoje, Ruanda tem uma representatividade parlamentar de mais de 60% de mulheres no governo, porém ainda com práticas extremamente patriarcais, inclusive na legislação. Então, na prática acaba não sendo um país tão igualitário como se diz ser,” explicou. Ela também conheceu projetos que não só empregavam, mas também capacitavam mulheres. Assim, amadureceu a ideia de um negócio de impacto social em busca de um equilíbrio melhor na sustentabilidade financeira, modelo que ela e as parceiras brasileiras estão levando para Uganda. Marília defende que é possível não depender somente de doações, por exemplo. “Tem incentivos de impostos. Organizações que já conseguem se enquadrar nessa nessa categoria de empreendimento social, de negócio de impacto social, são taxadas de uma maneira muito específica, com incentivos fiscais muito alinhados com propósito dos projetos para garantir essa sustentabilidade financeira”, esclarece. "Isso me surpreendeu muito, até mais do que eu vejo no Brasil hoje." Em países onde ainda há instabilidades política, social e econômica, projetos podem acabar do dia para noite pelo fim de financiamento. “Então, muitas organizações hoje estão olhando para o equilíbrio dessa sustentabilidade para começar a se transformar em um negócio social”, completou. O destino a levou para Uganda, país onde o companheiro dela nasceu. Ele é produtor cultural e músico. Em meio às restrições impostas pela pandemia, os próximos meses serão de muito trabalho. Ainda há trâmites burocráticos para a implementação do instituto e há uma campanha virtual de arrecadação de recursos para cobrir essas despesas. Marília frisa que há muito o que fazer em prol das mulheres em Uganda, onde boa parte delas já experimentou violência sexual na vida. Além disso, relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são consideradas crime no país, uma realidade que também incomoda a feminista brasileira. “A gente não pode só falar da questão de gênero individualmente. Ela é atravessada por questões de raça, socio-econômicas, de orientação sexual em diferentes países. O feminismo interseccional tem que olhar para essa amplitude, para essas relações de poder que discriminam e afetam, inclusive, mulheres trans”, explicou. Ela lembra que Uganda ainda é um país muito violento para a população LGBTQI+. “Porém, tanto o movimento feminista como o movimento LGBTQI+ aqui são movimentos muito articulados, muito organizados e muito vocais com relação a essa problemática. Trazem muitas denúncias e formas de resistência junto ao governo e organizações internacionais”, ressaltou. Uganda é um país governado pelo mesmo presidente, Yoweri Museveni , há 35 anos. Opositores são oprimidos e a liberdade de expressão, limitada. Neste cenário, ela diz seguir sem medo e testemunha corajosas formas locais de resistência. “A gente precisa entender todas as realidades, os contextos, os sistemas de opressão, as estruturas de poder que estão realmente impostas para conseguir promover uma transformação profunda, que contemple todas essas populações minorizadas e oprimidas. Eu aprendi muito isso a partir dessa minha experiência aqui”, contou. "A ideia é que a gente consiga criar cada vez mais essa consciência de gênero não só com as mulheres, mas com os homens também, porque é a partir de uma população educada, informada, que as coisas podem se transformar”, destacou. Marília diz que a vivência em Uganda a permitiu conhecer um especial senso de comunidade. “O que é seu é meu, o que é meu é seu, eu olho por você, você está sempre olhando por mim, as crianças são criadas por toda a vizinhança, o problema meu é um problema seu, o espaço público é um espaço público nosso, não é espaço de ninguém que fica aí, à deriva, como acontece muito no Brasil”, comparou. Essa potência de comunidade, na opinião da brasileira, precisa ser cada vez mais encorajada e resgatada. “Às vezes a gente só precisa facilitar as conversas, as discussões. Talvez até trazer alguns recursos financeiros necessários para promover o desenvolvimento de soluções importantes para aquela comunidade. Mas o saber está ali”, declarou.
    1/15/2022
    5:31
  • Violência, pandemia e estereótipos fazem parte de rotina de psicóloga brasileira na África do Sul
    A psicóloga brasileira Mara Perrotti acompanha de casa, em Joanesburgo, as últimas notícias sobre a onda de violência na África do Sul, como se já não bastassem as consequências da pandemia na vida de quem mora no país que registrou quase 40% dos casos de Covid-19 no continente africano. A paulistana se disse triste e surpresa ao ver isso acontecendo, mas nada que a abale psicológicamente ou a impessa de continuar pensando em ajudar os outros. Por Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Por ter morado em São Paulo ela diz que, “infelizmente”, já está um pouco familiarizada com manifestações violentas. “Lá acontece também. É um desastre isso, triste de se ver. Em São Paulo, a gente já convive com violência. Então, a gente fica meio 'casca grossa' com isso”, afirmou. Mas ela sabe que outros brasileiros vivendo no país ou que pensam em ir para a África do Sul acabaram ficando preocupados. “É ruim, pois a pessoa já começa a pensar em ir embora”, lamentou. Um dia antes de o governo sul-africano impor um dos confinamentos nacionais mais rígidos do mundo, no fim de março do ano passado, por conta da pandemia, ela desembarcou em Joanesburgo, onde vive com o noivo (também brasileiro). Há mais de dois anos a psicóloga trabalha remotamente, antes de boa parte da população mundial ter sido forçada a aderir a esta rotina. Ao contrário de outros psicólogos, a brasileira não vê problema em chamar quem ela atende de paciente, pois acredita que isso não significa tratá-los como doentes. “A gente parte da premissa de que paciência é a ciência da paz. Então, eles estão vindo buscar a paz. Tem gente que os chamam de clientes. Me agrada muito esse cunho de vir buscar a paz”, explicou. Logo no início da entrevista, virtual, a brasileira se revelou apaixonada pelo único filho, que tem 23 anos e está no Brasil, pela profissão e se mostra íntima da ideia de se olhar para outro ser humano como se estivesse vendo a própria imagem refletida no espelho. Não por acaso escreveu no perfil dela em uma rede social uma frase de apresentação atribuída a Gandhi que resume esse conceito:"Eu e tu somos um só, não posso te magoar sem me ferir". Atendimento gratuito Tendo percedido o quanto a pandemia estava deixando muita gente ansiosa e preocupada, Mara fez um anúncio oferecendo atendimento psicológico gratuito a brasileiros na África do Sul. O post se espalhou em redes sociais e dez mulheres procuraram a psicóloga. Quatro ainda moravam no país. Outras tinham acabado de voltar para o Brasil. Mas o anúncio dela chegou também a brasileiras no Canadá e na Austrália. Todas se sentindo sem rumo. “Eu queria muito contribuir com alguma coisa neste momento que estamos vivendo. Achei que utilizar meu trabaho, minha escuta, ia confortar um pouco coração das pessoas”, contou. Mara preza pela privacidade das pacientes, mas revelou que quase todas estavam bem mais carentes afetivamente. E como o distanciamento físico passou a ser regra de comportamento, a saída para algumas brasileiras foi se aventurar nos aplicativos de relacionamentos. Isso escancarou uma realidade enfrentada por muitas no exterior: ter que lidar com o esteriótipo de mulher fácil. “Brasileiro tem um esteriótipo internacional meio complicado, principalmente as mulheres. A mulher brasileira é vista como muito sensual, muito sexualizada. Elas acabam recebendo propostas que passam do limite do que seria gentil”, analisou. A psicóloga tem pacientes homens, mas disse que durante a pandemia só foi procurada por mulheres querendo atendimento e que a inquietação nos pacientes homens tem sido mais em relação à questão financeira. Solidão O lockdown aumentou a solidão das pessoas, ainda mais na África do Sul que, em março do ano passado, implementou um dos mais rígidos planos de confinamentos nacionais do mundo por conta da pandemia. A “falta de troca” pesou, de acordo com a psicóloga. “O ser humano é um ser social. A gente precisa do outro para saber quem a gente é, para ter essa troca. Isso começou a gerar uma ansiedade, agitação. Muitas (pacientes) apresentaram quadro de insônia porque não aguentavam mais ficar em lockdown”, contou. A brasileira explica que o movimento psíquico sabe ligar as defesas do ser humano, os instintos de cada um para sobrevivência, para se reagir a crises. “A gente só precisa usar de criatividade para reinventar esse nosso cotidiano”, completou. Mas o que era para ter sido uma alternativa criativa de solução acabou gerando ainda mais complicação para as brasileras. “Quando a gente imagina que a gente está em lockdown e a gente está querendo fazer amigos para trocar experiências para se sentir um pouco mais socialmente ativo necessariamente a gente não precisa chegar a uma conversa de cunho sexual”, disse. A psicóloga contou que todas relataram que buscaram esse recurso relataram a mesma situação: chega um momento em que o “jeito” brasileiro entra em campo na conversa, exaltando quase sempre o carnaval, o biotipo da mulher e o desempenho sexual delas. “É muito triste. Há quatro ou cinco que querem muito se relacionar mas não conseguem. Não sei te dizer se essa é mesmo uma condição para que isso não aconteça. Essa realidade foi algo que me chocou bastante. Eu tinha ideia do que era, mas agora ficou muito claro para mim”, analisou. A psicóloga diz que como profissional ela não orienta, mas ajuda cada paciente a pensar no próprio bem estar, trazendo recursos que cada um tem para lidar com isso. “Vou questionando, ajudando a pensar nesse assunto”, disse. Como experiência pessoal, ela conta que nem usa na África do Sul algumas roupas que costumava usar no Brasil, por exemplo. “Eu me adaptei com o que eu quis me adaptar”, ressaltou. Crises nos casamentos e dificuldades de se relacionarem com os filhos também foram problemas enfrentados pelas novas pacientes brasileiras, muitas distantes do resto da família e nem sempre dominando o idioma falado onde vivem atualmente. Porém, Mara disse que nenhuma delas continuou a procurar a psicóloga. “Senti que estavam só querendo apagar incêndio. Elas vinham mais para desabafo do dia a dia”, lamentou. Um hábito que ela adotou para si e recomenda a todos, ainda mais na pandemia, é fazer uma revisão da vida, se perguntando sempre se está feliz. “Eu enxergo a vida como uma viagem. Como vou aproveitar essa viagem? O que quero viver neste período? O que faz sentido para mim, o que me deixaria feliz?”, colocou. Ela revelou que ainda deseja viver tempo suficiente para ser avó, mas que é saudável pensar na possibilidade de estar vivendo o último dia sempre se perguntando: "Se hoje fosse seu último dia de vida estaria feliz com aquilo que construiu?".
    7/18/2021
    5:57
  • Pesquisadora paulista ajuda a recuperar biblioteca da mais antiga universidade sul-africana atingida por incêndio
    Uma tragédia que acabou unindo pessoas diferentes com um mesmo propósito. Foi como a paulista Gabriela Eugenio conseguiu ver, buscando um tom de positividade, a consequência do último incêndio florestal que, em abril, devastou parte da vegetação nativa da imponente Table Mountain, emblemático cartão postal da Cidade do Cabo, onde ela mora desde que se mudou para a África do Sul, há quase um ano e meio. Por Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul “O incêndio foi uma tragédia e até hoje é triste que a gente precise dessas tragédias para perceber o quanto nós temos o poder de fazer o bem quando estamos unidos, quando todos nós queremos atingir uma meta comum. Se todo mundo se unir, apesar das diferenças, a gente consegue um resultado incrível”, disse. No dia do incêndio parte da cidade foi tomada por uma gigantesca cortina de fumaça. O fogo destruiu imóveis construídos perto da montanha, forçando milhares de estudantes e moradores a evacuarem a área. O incêndio não chegou até a casa da brasileira, que vive em um bairro universitário próximo. Só que as chamas alcançaram prédios da Universidade da Cidade do Cabo, a mais antiga da África do Sul. É onde Gabriela, que é formada em Economia, atualmente faz mestrado em Desenvolvimento Social. Um dos locais mais atingidos pelo incêndio foi a biblioteca Jagger, onde estavam mais de 1.300 coleções e 85.000 livros sobre a história da África, entre obras inéditas, manuscritos, mapas, teses de doutorado, estudos sobre o regime de segregação racial do apartheid, sem falar em pinturas do século XIX. Não há cópias de boa parte deste material. Ainda não se sabe ao certo o tamanho do estrago, mas o que se viu nas últimas semanas - e também chamou atenção - foi a união de voluntários dispostos a dar continuidade ao incansável esforço de se manter documentada a história da África. “É aquela sensação de você perder uma parte do seu passado, apesar de não ser diretamente o seu passado”, declarou a paulista. O estudo que Gabriela desenvolve faz parte do centro de Humanas, onde a biblioteca ficou intacta. Mas Gabriela usava salas de estudos e computadores disponíveis na biblioteca destruída. Mesmo atualmente trabalhando bastante de casa, ela arregaçou as mangas e se juntou ao grupo de voluntários que se revezam desde o mês passado no campus da universidade para recuperar o que foi possível salvar. “ É triste pensar que alguns itens não serão recuperados. Por isso eu quis ajudar a recuperar o que ainda tinha chances para ver o lado positivo. Exatamente para superar essa tristeza, esse sentimento de perda, que surgiu a vontade de ir lá colaborar e dispor o meu tempo para recuperar o que tinha sobrevivido à tragédia”, justificou. Fogo e água destruíram materiais Ela conta que há diferentes frentes de trabalho na recuperação da biblioteca. O que não foi afetado pelo fogo pode ter sido afetado pela água utilizada para conter as chamas. Alguns materiais acabaram sendo afetados pela umidade. Cada ajuda foi e tem sido de extrema importância. “Meu grupo ficou responsável por passar por todas as caixas, os materiais que foram recuperados, e verificar se tinha mofo nesses materiais. Então, essas caixas que eram identificadas com mofo passavam para a equipe de limpeza fazer o tratamento e poder arquivar o material corretamente para depois ser realocado”, detalhou. De acordo com a a vice-reitora Mamokgethi Phakeng, graças ao revezamento de voluntários – cerca de 150 por dia – em quase duas semanas foi possível recuperar aproximadamente metade dos arquivos da biblioteca. O ministro de Educação Superior da África do Sul, Blade Nzimande, visitou recentemente o campus da Universidade da Cidade do Cabo atingido pelo incêndio no mês passado e disse que a maior parte dos prédios danificados deverá ser reparada até o fim de julho. Estudo comparativo sobre segregacionismo Gabriela está fazendo um estudo comparativo entre África do Sul, Brasil e Estados Unidos, três países que passaram por longos períodos segracionistas. A base da pesquisa da brasileira são conceitos apresentados pelo doutor Silvio Almeida, advogado, filósifo e professor, e a filósofa e escritora Djamila Ribeiro, ambos com livros publicados sobre o tema. “(Os dois) trouxeram essa ideia de que o racismo nessas sociedades, na verdade, é estrutural”, comentou. A ideia dela não é falar apenas sobre o Brasil. É mostrar que o racismo na África do Sul e nos Estados Unidos também é estrutural, exatamente, por que ele já faz parte das instituições. “Ele não depende de ações individuais, de grupos racistas. Já está permeado em todo o sistema político e econômico das três sociedades. Por isso que a gente vê tantas desigualdades sociais nesses três países”, explicou. A brasileira é otimista em relação a uma mudança deste cenário no futuro. “Atualmente há muita política de ação afirmativa, que é uma tentativa de fazer uma reparação histórica para esses grupos que sofreram desvantagens ao longo do tempo”, disse, exaltando o sistema de cotas raciais brasileiro em universidades e cargos públicos como um exemplo. “Com o tempo espero que a gente consiga ver uma maior inclusão social da população negra e africana também”, concluiu a mestranda.
    5/30/2021
    4:53
  • Pesquisadores brasileiros participam de projeto de troca de correspondência em português com estudantes
    Comunicar ciência de uma forma acessível, incentivar crianças a chegarem ao ensino superior e fortalecer a língua portuguesa. São objetivos que se complementam dentro do projeto Cartas com Ciência, iniciativa que promove um verdadeiro intercâmbio acadêmico e cultural entre pesquisadores e estudantes dos países que falam Português. Caroline Ribeiro, Lisboa Quando a bióloga Anaclara Pincelli soube do projeto, não teve dúvidas de que queria participar. “É uma vontade de não conversar só entre cientistas e a gente está vendo o quão importante isso é, de a Ciência não ficar só com ela mesma”, explica. Doutoranda em Ciências Biomédicas na Universidade de São Paulo, a bióloga começou a se corresponder com uma adolescente de 13 anos de São Tomé e Príncipe. “Ela me contou das comidas que tem em São Tomé, perguntou se eu conhecia esses pratos. Perguntou se eu era médica, então foi bem interessante comentar que eu não faço esse trabalho de assistência, como médicos e enfermeiros, mas que, de certa forma, posso contribuir para a tomada de decisão na área da saúde. Em cada bloco de cartas, temos sugestões de temas que podemos aprofundar, contei um pouco do percurso que eu tive, como foi para chegar onde estou, foi muito legal”. Para se tornar um cientista correspondente é preciso estar no meio acadêmico, sendo pesquisador ou professor, e todos passam por um treinamento. “Por um lado, é para eles ficarem inteirados de como funciona o Cartas com Ciência e porque o projeto é importante. E é também para dar algumas ferramentas e sugestões de como escrever as suas cartas em uma linguagem acessível, que as crianças consigam compreender”, explica Rafael Galupa, co-fundador da iniciativa. Cada estudante passa um ano letivo se correspondendo com o mesmo cientista. Para acertar nas duplas, são levadas em conta as áreas de interesse de cada um. “No início do ano letivo, os estudantes preenchem um questionário em que escolhem, numa lista de palavras, alguns tópicos científicos. Os cientistas escolhem esses mesmos tópicos, que estão relacionados à pesquisa que fazem. Às vezes há empate e como perguntamos o que as crianças e cientistas gostam de fazer nos tempos livres, usamos isso para desempatar”, conta o responsável. Fundado há apenas um ano, o projeto já conta com 500 cientistas cadastrados e com cerca de 100 estudantes de escolas participantes em São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Portugal, mas o objetivo é chegar a todos os nove países de língua portuguesa. “No próximo ano letivo, em setembro, vamos começar em Cabo Verde e Angola, possivelmente em Guiné-Bissau. Na chegada do ano letivo do hemisfério Sul, no início de 2022, pensamos em organizar a primeira turma no Brasil”, diz Rafael Galupa. Para Judá Lobo, professor do Instituto Federal do Paraná, que se corresponde com uma estudante de 13 anos de São Tomé e Príncipe, o projeto se torna ainda mais relevante no contexto atual do Brasil. “A questão da Ciência no nosso país hoje tem um apelo político muito forte. A minha impressão é de que a Ciência no Brasil não é exatamente um valor. Claro que existem Universidades, comunidades científicas, mas talvez elas tenham ficado fechadas demais por muito tempo. Participar é muito importante, como cientistas e politicamente como cidadãos brasileiros”, afirma. O Cartas com Ciência é inspirado em um projeto americano. No cenário da lusofonia, em que cinco dos nove países falantes de português estão na lista dos menos desenvolvidos da ONU, a iniciativa quer reforçar a nossa língua como ferramenta de desenvolvimento social. “Reforço muito nas cartas que falamos de lugares tão diferentes, tão distantes, culturas tão diferentes, mas unidos pela língua portuguesa. É uma língua de oportunidades para nós e para eles”, diz Judá Lobo. Segundo a organização, para 90% dos alunos que participam é a primeira vez que entram em contato com um pesquisador científico e mais da metade deles, até então, nunca tinham escrito ou recebido uma carta. “É emocionante e gratificante saber que nós influenciamos a vida futura de muitas crianças. Sabermos que podemos contribuir para que uma criança consiga fazer a sua escolha. Por isso que me emocionei ao receber a minha primeira carta da minha amiga por correspondência”, diz a bióloga Agnes Novela, professora da Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique, que troca cartas com uma menina da cidade de Coimbra, em Portugal.
    5/16/2021
    6:43
  • Advogada brasileira denuncia violações de Direitos Humanos em Moçambique e Angola
    Uma das atuais missões de Camile Cortez é denunciar ao mundo a crescente violência em Cabo Delgado, província que fica no norte de Moçambique. A população local é alvo constante de ataques terroristas e de abusos cometidos por integrantes das forças de segurança, o que amedronta locais, espanta visitantes e já fez mais de 600 mil pessoas deixarem as áreas onde viviam por medo. Vinícius Assis, correspondente da RFI na África do Sul Aos 17 anos, CamileCortez trocou a cidade de Porto Velho, em Rondônia, por São Paulo. “Porto Velho, infelizmente, não tinha o conteúdo em Direitos Humanos e Direito Internacional que sempre tive curiosidade”, lembrou. Hoje ela é advogada, concluiu dois mestrados na tradicional universidade francesa Sorbonne e vive na África do Sul. A brasileira é coordenadora da Anistia Internacional para assuntos envolvendo Angola e Moçambique, dois dos países de língua portuguesa no continente africano. No início do mês, a equipe de Camile divulgou um polêmico relatório sobre o norte moçambicano, pouco antes da organização Save the Children publicar outro levantamento afirmando que até crianças vêm sendo decapitadas por extremistas que, desde 2017, promovem atentados em Cabo Delgado. “É importante o conflito sair do silêncio. Outros países, o público em geral, começaram a ouvir sobre o que estava acontecendo em Moçambique. Isso é muito importante, pois exerce uma pressão sobre o governo moçambicano e todos os outros atores na situação, para terem mais responsabilidade sobre seus tratados e obrigações internacionais em casos de conflitos”, diz. Ao comentar a decisão dos Estados Unidos de incluir o grupo que atua nesta região moçambicana na lista de forças terroristas estrangeiras, ela diz que isso trará muitos desafios para assistência humanitária no terreno. “Foi o que a gente viu na Somália e na Nigéria”, declara. Sobre o anúncio de que militares norte-americanos treinarão integrantes das forças armadas moçambicanas por dois meses, ela disse que pode ser necessário um prazo maior. “Moradores entrevistados por nós relataram que os militares moçambicanos estão despreparados para um conflito e o treinamento é necessário, de uma certa forma. No entanto, nossa preocupação é que esse treinamento a longo prazo sempre deve ter uma perspectiva das obrigações de Direitos Humanos e Direito Humanitário", frisa. "O problema é que demoram gerações e gerações para que uma força militar comece a entender e implementar nas suas ações o Direito Internacional e os Direitos Humanos. Dois meses de treinamento não sei se seriam suficientes pra atingir este objetivo”, analisa. Denunciar os desrespeitos aos direitos humanos que ainda acontecem na África é bem diferente de simplesmente reforçar o esteriótipo negativo do continente. E a brasileira sabe bem disso. “É uma questão muito sensível. Existe este esteriótipo, mas a gente sempre toma muito cuidado com a forma de apresentar nosso trabalho, sempre tenta mostrar que essas pessoas têm dignidade. A gente tenta retratar a situação de uma forma a ajudar a população que está passando por este sofrimento e este abuso”, conta. Violência policial Enquanto protestos cresciam nas ruas de vários países após a morte de George Floyd, nos Estados Unidos, a equipe da brasileira trabalhava para denunciar a violência policial que também fez vítimas em Angola durante a pandemia. “Até o final do ano passado nós documentamos 11 assassinatos cometidos por agentes da polícia e das forças armadas”, afirmou. O objetivo do relatório era pedir o fim do uso excessivo de força letal pela polícia contra a população na tentativa de forçar o cumprimento das restrições de circulação impostas por conta da pandemia. Segundo a coordenadora, o impacto imediato do relatório foi a troca do discurso do governo, que inicialmente rejeitava qualquer responsabilidade nessas mortes. “O governo começou a aceitar que, realmente, excessos estavam sendo cometidos pela polícia e dizer que os casos seriam investigados e os culpados seriam responsabilizados criminalmente e civilmente pelas suas ações”, reitera. Camile lembra que atualmente uma equipe de advogados parceiros segue acompanhando os caso em Angola. “A gente vai continuar observando se realmente essa responsabilização criminal e civil está acontecendo de forma transparente e eficaz, se o governo vai cumprir com as promessas de fim de impunidade feitas logo após a publicação do nosso relatório”, concluiu. Comunicação Ao contrário de Moçambique, a brasileira afirma que há uma linha de comunicação entre a equipe dela e o governo angolano. “Em 2019, antes da pandemia, fomos até Luanda e tivemos uma reunião com a secretária de Direitos Humanos. Ambas as partes tentam dialogar, enquanto que em Moçambique a gente não tem acesso às autoridades do governo. Nossas solicitações de reuniões e informações são ignoradas. Então, a gente ainda não conseguiu estabelecer (o mesmo canal de comunicação)”, esclareceu. Apesar de trabalhar com temas delicados sobre Angola e Moçambique, Camile diz que recomenda os dois países para turistas brasileiros (depois que a pandemia passar). “Moçambique é um país incrível. Eu me sinto particularmente muito acolhida toda vez que vou a Moçambique, um país com várias belezas naturais e muito acolhedor”, disse, reforçando que – por enquanto – os ataques exremistas acontecem apenas na região norte do país. Encorajando o turismo de brasileiros em Angola, ela destaca a forte ligação entre os dois países. “Angola tem um vínculo histórico-cultural muito forte com o Brasil. Então, é muito interessante você visitar e conhecer um pouco mais sobre a história do país e ver como as histórias dos angolanos e dos brasileiros estão entrelaçadas e tem muita coisa bonita para se ver em Angola também", conta.  "Tem muitas províncias com canyons, belezas naturais, praias, safaris e que há muito ainda desconhecido por brasileiros. Recomendaria às pessoas visitar o país e se interessar por essa cultura angolana que é a raiz de uma parte da população brasileira”, disse. Pandemia complica viagens Mas o deslocamento da brasileira pelo continente tem ficado cada vez mais difícil. Não só pelas restrições de viagens impostas por governos africanos, mas pela dificuldade de se acessar áreas como o norte moçambicano. Em 2018, ela esteve pessoalmente na - cada vez mais violenta - província de Cabo Delgado, região que vem se tornando quase que inacessível para jornalistas e defensores dos Direitos Humanos como ela. “Neste momento em Moçambique a Anistia é um ator muito contraditório, mas isso não impede que a gente continue fazendo o nosso trabalho, monitorando e documentado a situação de forma credível, com todos os contatos que a gente já tinha na região e sem colocar ninguém em perigo”, reforça. Ela se sente feliz fazendo o que faz, já que, afinal, pela própria formação acadêmica, sempre se preparou para isso. “O meu trabalho hoje em dia me permite que eu ponha meu conhecimento disponível para ajudar pessoas que estão sendo perseguidas apenas pelo trabalho delas nesses países”, contou. Os momentos de frustração também fazem parte da realidade dela. “O trabalho de Direitos Humanos é a longo prazo, não é um trabalho que você vê o impacto e os resultados de forma imediata. Isso pode trazer um pouco de frustração, mas eu tenho uma motivação interna muito maior que me permite sempre continuar dando meu melhor para exercer meu trabalho da melhor forma”. No Brasil os pais sempre se preocupam com a segurança dela, que acaba os tranquilizando. “Eles sabem que tenho maturidade suficiente para saber até onde posso ir”, concluiu.
    3/28/2021
    8:17

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